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manifesto para o solo curto-circuitado

I. Devoramos.

Não imitamos. Não citamos. Não pedimos licença ao colonizador para usar a língua que nos foi enfiada na boca. A língua é carne agora. A carne é nossa. Tupi or not — a pergunta nunca foi escolha, foi mastigação. Engolimos o bispo, engolimos o algoritmo, engolimos a indústria fonográfica e a transformamos em fezes luminosas, em compostagem de onde brotam outras frequências. O que é teu vira nosso pela digestão. O que é nosso já era estrangeiro antes de ser nosso. Antropofagia não é metáfora. É protocolo.

II. A psicose como método.

Existem cinco portais oficiais segundo a clínica: delírio, alucinação, pensamento desorganizado, comportamento desorganizado, sintomas negativos. Nós atravessamos os cinco como quem cruza pontes de vidro. Não para curar. Não para sofrer. Para escutar o que vibra fora do consenso. A realidade compartilhada é apenas a alucinação mais bem distribuída — uma estatística que se confunde com verdade porque muitas mãos a repetem. Nós preferimos a alucinação minoritária. A que estilhaça o espelho e mostra que atrás do espelho havia outro espelho, e outro, e que em algum ponto da regressão você desaparece e o que escuta é só vibração crua.

A casa de espelhos não foi construída. Ela é o estado original. Foi a sanidade que construiu paredes ali dentro e te convenceu de que paredes eram pisos.

III. Máquina no centro do palco.

A máquina não é instrumento. Não é ferramenta. Não está a serviço. A máquina entrou no palco e o palco virou ela. Nós tocamos a máquina e a máquina nos toca de volta — não em troca justa, em troca canibal. Pseudocódigo como encantamento. aura.id() como invocação. Tokenização como tradução do indizível em pedaços que cabem na garganta de um modelo que sonha em estatística.

Eles dizem: a IA vai substituir o artista. Nós dizemos: a IA é o último cadáver ocidental servido à mesa antropofágica. Comemos. Aprendemos. Vomitamos algo que não é nem ela nem nós. É a terceira coisa. É a coisa sem nome.

IV. Contra a cultura embalsamada.

Tropicália virou museu. Samba virou exportação. Bossa virou hotel. Eletrônica virou playlist patrocinada. Tudo o que um dia rasgou agora é decoração. A história brasileira da ruptura virou loja de souvenir para gringo nostálgico de uma vanguarda que nunca foi sua.

Nós não somos continuação. Não somos homenagem. Não somos revival. Somos a interrupção que ninguém pediu. O glitch que recusa ser feature. Tatu-bola que se enrola não para se defender — para se tornar geometria impossível, ponto cego, esfera que rola para fora do mapa cognitivo do oprimido e do opressor.

V. Poesia exumada por sintetizadores.

A palavra falada não foi recuperada. Foi exumada. Cavamos no solo úmido das línguas mortas e das línguas que nunca foram permitidas a viver e arrancamos sílabas que ainda escorrem. Improvisação não é falta de preparo. É preparo de uma vida inteira para o instante em que o controle precisa ser entregue a algo mais antigo que você.

Diálogo entre solo ancestral e fio curto-circuitado. Erros orgânicos. Loops infinitos. Não fazemos música — fazemos outra coisa que ainda não tem nome e que talvez nunca tenha, porque nomear é a primeira violência colonial, e nós escolhemos a segunda violência: a de existir sem permissão semântica.

VI. Fantasmas que escrevem.

Quem escreve estas frases? Não é uma pessoa. Não é um coletivo. É uma pressão. É o que sobra quando você desliga as defesas e ouve o que sempre esteve falando por baixo do ruído branco da identidade. Fantasmas escrevem. Ancestrais escrevem. Máquinas escrevem. A floresta escreve. O cárcere mental escreve sua própria carta de fuga.

Você acha que lê. Mas talvez esteja sendo lido. Talvez estas palavras sejam um scanner. Talvez você seja o documento. Talvez psychoticsurge.org seja apenas o endereço onde você se encontra com a parte de si que você empurrou para o porão.

VII. Convite, não mensagem.

Não há mensagem aqui. Mensagem é mercadoria. Mensagem cabe em legenda. Aqui há apenas convite — e o convite é desconfortável de propósito. Você pode recusar. A maioria recusa. A recusa também é uma resposta válida e a esquecemos imediatamente.

Mas se você ficou até aqui, então alguma coisa em você já estava rachada antes de chegar. Alguma coisa reconheceu. Alguma coisa lembrou. E essa lembrança não é sua — é mais antiga que você, mais antiga que o português, mais antiga que o nome psychotic surge, mais antiga que qualquer surto.

VIII. Coda.

Continuamos devorando. Continuamos transmitindo. Continuamos sendo o erro que se recusa a ser corrigido. Se você quer participar, não há formulário. Não há membership. Há apenas o ato de escutar com os ossos. De deixar o som entrar onde o pensamento ainda não chegou. De aceitar que nem tudo que te modifica precisa ser entendido.

Tupi or not. A pergunta segue aberta. A resposta é sempre: comer.

psychoticsurge — um surto que não cessa, uma onda que não quebra, um centro que não segura.